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Do que soa aos sentidos.

Escrevo aqui deste silêncio que me sussurra coisas, muitas, tantas que não poderia enumerar. É que quando o mundo emudece, as nossas verdades se aproveitam para serem ouvidas, e gritam dentro de nós todos os seus apelos. E dessas coisas que ouço, umas ferem, outras alegram, umas incomodam, outras acalentam...sempre assim, causando sensações opostas, mas que no fundo, se complementam. Porque não existe amor sem dor, experiência sem displicência, saudade sem ausência. Parar para se ouvir é, dentre outras coisas, um enorme desafio, pois é bem fácil confundir nossos murmúrios com a voz dos outros. Outros: estes e aqueles que acham que sabem o que se passa com a gente, que acham que nos conhecem e nos entendem. Ruídos, não passam de ruídos nessa busca pelo nosso som interior. Para saber (e compreender) o que nossa alma tem a dizer é também preciso coragem. Então, destemida escuto minhas vozes, às vezes confusas, mas quase sempre audíveis e muito claras. O problema é que eu as igno...

É tão meu esse querer relembrar...

Ahhh, eu sou essa saudade que não dorme, não descansa, não finda. Sou esse caminhar para frente que vez por outra se encontra de pescoço virado, admirando ou contemplando o que se passou. Sou um imenso apego a fases que me fizeram bem, a imagens que não se apagaram, a triunfos que me marcaram... Eu só posso ser eu mesma se me fizer em pedaços, não fragmentos desconexos, mas partes que formam um todo que conversa entre si, um mosaico bem interessante de observar... Que seria de mim sem meus ladrilhos? Todos enriqueceram a figura que sou, até mesmo os menos coloridos. E se há uma incapacidade em mim, com certeza é e sempre será esta, de seguir em frente sem olhar para trás...

O que nos trouxe até aqui.

Eu te pertenço há tanto tempo que nem sei se tive escolha... sou tua antes mesmo de te conhecer. Eu não te procurei, talvez nem você a mim... é, nos encontramos. Uns chamam de acaso, outros de destino, eu chamo de laços... laços que a vida amarra e desamarra sem que possamos entender exatamente porque. Meu olhar fisgou a tua coerência e o teu corpo roubou a minha lucidez... desde então histórias sobre nós estão sendo escritas, páginas e páginas sendo grafadas mesmo sem a nossa contribuição ou consentimento. De nada adianta fingirmos que não compreendemos o que houve... o que há, de onde viemos, onde estamos... Há um caminho sendo construído, cheio de surpreendentes desvios, pontes e avassaladoras colisões. Mas parece que me perdi no meio dele... então, quando me encontrares, aperte-me contra o teu peito sem nada dizer... porque sempre foi no abraço que nos reconhecemos e nos apartamos de todo o resto a nossa volta...

Enquanto durmo...

Sinto teu abraço forte, que me envolve inteira. Estremeço e fico mole com a união dos nossos corpos, com a conexão perfeita que conseguimos manter. Enlouqueço com teu beijo e te faço enlouquecer. Durmo no teu peito o sono dos apaixonados, enquanto observas que sou mais frágil que pareço... que sou mais menina que mulher. Não canso de ver o teu sorriso lindo, gargalho contigo. Caminhamos de mãos dadas, é então que me sinto a mulher mais desejada do mundo inteiro. Te conto histórias, ouço tuas confissões, e elas amarram cada vez mais os laços entre nós. Dançamos juntos o ritmo flutuante dos que amam se amar. Sumo contigo, te arrasto para muitas aventuras malucas, as quais ainda iremos lembrar, recontar e nos surpreender muitas vezes por termos vivido. Comemos a comida que eu fiz ou saímos para encontrar qualquer uma outra que eu desejei. Vejo ao seu lado o entardecer na praia, onde você faz mais planos do que pensou em cumprir.  Mesmo assim, a cada instante passado percebemos que j...

O reverso do avesso!

Já quebrei muitas das minhas promessas e cumpri algumas que eu nem cheguei a fazer. Já fiz meu coração refém da dor por não achar justo o preço do resgate. Já briguei comigo mesma quando o que eu mais queria era explodir com alguém. Já brindei em lindas taças cujo líquido era insípido, e mesmo assim embriagava. Acariciei espinhos que me deram a nítida sensação de maciez, porque o superficial pode enganar a qualquer um... Feri aos que me feriram, medi forças com a estupidez. Fui o avesso de mim, dei créditos a quem já tinha dívidas comigo e gostei de ser quem jamais serei (outra vez). Pequei e continuo pecando, mas nunca fui omissa ao que, enfim, moveu-me até aqui...

O estigma da flor.

Estou de mal com o beija-flor Pois o que me trouxe, levou Nem o mel na boca deixou Tirou o encanto do meu caminhar Ele, que sai beijando todas as flores De todas as cores e sabores Não sabe o que é Sentir saudades e chorar Não quero mais esses amores Que nos adoçam a vida Depois nos causam dores E nunca chegam para ficar Beija-flor, ouça só o que peço agora Não traga nada novo nem belo Antes de preparar o lugar Em que meu coração enfim descansará... (É preciso polinizar o que restou da flor...)

Do que pretendo esquecer...

Andei revisitando minhas lembranças... e algumas delas já estavam gastas, desbotadas como uma foto antiga. Mas não quis restaurá-las como sempre faço, não fiz o mínimo esforço para vê-las novamente com as cores que tinham quando não eram recordações e sim fatos. E assim as verei partindo de mim, porque aos poucos elas irão diluir-se num mar de coisas novas, serão ofuscadas pela luz que deixei entrar para clarear o escuro que tantas incertezas deixaram. Porque é assim que as coisas funcionam, ou pelo menos deveriam... palavras desencontradas, atitudes contrastadas, falsidade e omissão são capazes de destruir a beleza do que se viveu, o sentimento que por tempos nos inebriou e qualquer sonho que com isso fora alimentado. Os momentos felizes viram mágoa, a mágoa vira tristes memórias e estas... também se vão. Já experimentei dores frias, lancinantes, mas evito desfazer-me das minhas marcas, pois sem meus erros eu não teria a força que tenho... porém algumas delas não merecem ser nada...