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Do que pretendo esquecer...

Andei revisitando minhas lembranças... e algumas delas já estavam gastas, desbotadas como uma foto antiga. Mas não quis restaurá-las como sempre faço, não fiz o mínimo esforço para vê-las novamente com as cores que tinham quando não eram recordações e sim fatos. E assim as verei partindo de mim, porque aos poucos elas irão diluir-se num mar de coisas novas, serão ofuscadas pela luz que deixei entrar para clarear o escuro que tantas incertezas deixaram. Porque é assim que as coisas funcionam, ou pelo menos deveriam... palavras desencontradas, atitudes contrastadas, falsidade e omissão são capazes de destruir a beleza do que se viveu, o sentimento que por tempos nos inebriou e qualquer sonho que com isso fora alimentado. Os momentos felizes viram mágoa, a mágoa vira tristes memórias e estas... também se vão. Já experimentei dores frias, lancinantes, mas evito desfazer-me das minhas marcas, pois sem meus erros eu não teria a força que tenho... porém algumas delas não merecem ser nada...

Palavras vão e vem...

Há tempos as minhas palavras não eram suas... elas estavam presas em um espaço que demarcava o distanciamento que você provocou entre nós... e ficaram lá, abandonadas e insignificantes, sem a menor pretensão de emergir. Você as colocou num abismo e surpreendentemente, quando eu já não acreditava que elas pudessem elaborar sequer algo triste, você pagou o resgate e as trouxe de volta! Ahhh, então aos poucos elas foram surgindo, sorrateiramente caiam do canto da boca e me enchiam as mãos... eu as tateei, as enfeitei e até pus açúcar, assim quando fores digeri-las desejarás ouvir de mim sempre mais, mais e mais... Sabe, a raiva e a mágoa também fazem com que as palavras fluam, são cuspidas em série, surgem amargas e detém a capacidade incomparável de produzir textos e discursos... mas tudo a base de lágrimas e muita dor. Por outro lado, quando o vocábulo fica escasso, some de nós e já não há o que dizer, é porque todos os sentimentos, bons e ruins, também já se foram... e eu? Eu não ...

Sentada à beira do meu caminho...

Há dias pesados, ou melhor, fases ásperas em que a vida parece mais densa do que realmente é... e estranhamente em alguns desses momentos a minha solidez me abandona em vez de me fazer reforço. Talvez seja um recado sutil de que também é preciso ver-se e sentir-se frágil. E embora eu me sinta uma roupa fora do corpo ou um acessório que destoa do conjunto, lá no fundo eu encontro beleza no meu caminhar. É a essência que não partiu, a fé que insiste em ficar... A minha fome passou e a sede já não me incomoda, mas eu me alimento, bebo de gole em gole as intempéries da minha existência. Não vou partir de mim e nem destoar do que sempre fui, só quero um tempo para esmorecer e sentar-me pra ver a vida passar... Tantas vezes fui conto, hoje sou crônica, mas ainda volto a ser poesia...

Por ora, juíza.

Hoje quero julgar-me... porque isso não cabe a mais ninguém na Terra que não a mim mesma. Afinal... quem saberá o que a minha mente pensou? E quantos desses pensamentos se tornaram reais?    Quem há de saber até onde sou amor ou quanto ódio já fui capaz de sentir? Quem poderá avaliar o real peso dos meus erros e triunfos?  Que sentimentos movem meus atos? Ninguém é capaz de previr. Quantas histórias abrigo em minha alma e de quantas já quis esquecer? Quantos acertos e quantas tolices... Ninguém sabe, ninguém crê. Vou julgar-me, mas sem a conhecida complacência que sempre me dediquei. Vou julgar-me, e já posso ver que haverá condenação. E o meu cárcere serei eu, somente eu conhecerei a minha pena, pois não há juiz maior que o coração que pulsa em mim.

Alvos versos de quem sempre emana cores!

Eu não sei fazer graça Também não sei fazer drama Mas sei olhar reto Sem desviar Eu não sei seguir caminhos Nem instruções Mas sei reconhecer E desejar Não sou feita de tristezas Nem só de alegrias E quando a saudade aperta Eu só consigo cantar As palavras que falo Não são jogadas ao vento Elas ganham eminência No simples ato de registrar Seja este ou aquele O meu sentimento Eu nunca me poupo De proclamar É que eu não sou daqui Nem de lugar nenhum E estou a procura De um lugar pra ficar!

A luz dos olhos que perdi...

Queria andar por aí e reencontrar teus olhos, aqueles olhos que ludibriaram minha percepção, mas que por um gostoso período me falavam de alguém que inspirava confiança. Em ti eu tinha aquela velha "quase certeza" que podia descansar o peso do mundo, o peso de mim mesma e debruçar sentimentos ensolarados de esperança, renovação... onde tudo velho poderia ser esquecido. Mas a mesma pessoa que se apresenta com uma ótica cintilante, se encarrega de despir-se do seu brilho inicial. O problema é que a minha disposição gratuita em crer no que as pessoas tem de mais caro, guarda de ti a melhor imagem, o olhar mais meigo, o gesto mais puro, as intenções mais lindas, mesmo que a parte corrompida do teu ser seja a mais evidente no momento... Pode deixar, eu separo suas porções que me encantaram, vou atar todas elas e juntá-las no meu melhor pedaço... pois a minha parte mais lúcida e fria continuará a ver-te com o olhar atento de decepção.

A doutrina dos meus opostos contingentes...

Eu não sei se já te disse, mas eu sei voar. E às vezes eu voo alto... Existe lá em cima um lugar onde eu repouso de mim... e me observo como que duvidando que existo. Nestas horas me vejo atrapalhada tentando administrar os dualismos que coabitam na menina que ainda sou. Certo e errado, razão e emoção, força e fragilidade, ser ou ter, cultivar a matéria ou o espírito, ser una ou múltipla, liberdade e responsabilidade, querer e poder, desejar e fazer... tudo flamejando ao mesmo tempo neste corpo e nesta mente que já não tem nenhum resguardo. Sigo caminhando neste confronto habitual. Poucas pessoas conseguem visualizar a si mesmas assim, de longe, desprendidas de tudo que são e acreditam. Eu saio de mim para melhorar meu esboço, esculpir com traços firmes e bem delineados a obra que sempre será inacabada. E quando volto, mais um dualismo me abate: o que deve seguir comigo e o que deverá apartar-se de mim!