Pular para o conteúdo principal

Para renascer é preciso morrer!


É exatamente assim, no começo parece que te falta o ar, que algo espreme teu peito sem cessar e derrama o sumo dessa compressão nos teus olhos, compulsivamente.
Os primeiros dias passam e nada colore tua existência, só habita em ti a neblina das lembranças cinzentas, daquilo que ainda te fere...e estão em tudo que tu tentas fazer, repetindo-se como um velho vinil riscado, fazendo ondas gigantes em tua mente...das mentiras que te foram contadas, das verdades omitidas, das peças que se encaixam, da dissimulação ardil, das atitudes tão ínfimas quanto rasteiras e do presente se encontrando com as mesmas dores do passado.
É a desconstrução do que tu acreditavas, ou achava que ainda cria. É o fim da tua luta, que por mais que parecesse perdida, havia dias em que alguns sinais diziam que a guerra valeria a pena. Mas não valeu! Lutar pelo quê agora? E o mundo parece partir ao meio, mas tu não estais nem de um lado e nem do outro. Estais sem segurança, sem direção, neste abismo que se abriu a tua frente. Tudo em ti parece morto, dentro e fora, teus olhos não são mais os mesmos. A parte boa da tua vida transforma-se em mera ficção, e a parte ruim apresenta-se como aquilo que tu tens de mais palpável.
Não há respostas, não há explicação, nada mais há, a não ser um grande vazio. E este luto é vivido minuto a minuto, hora a hora e a cada noite que teu sono dá lugar a conjecturas e convicções amargas. E tu não foges dele, ao contrário, entrega-te completamente. E depois de viver cada momento dessa negra fase, compreendes que ela era necessária e que tu não estais morta. Passou. Tudo passa.

E agora as cores que te cercam são outras, o teu peito não está comprimido, ele está aberto e parece querer voar. Teus sonhos voltaram a ter força, eles te erguem e te fazem vibrar. Teus olhos não mais queixam-se em lágrimas, mas olham para a vida sob a ótica maravilhosa da fé. E o que  ficou pra trás  tornou-se uma folha de papel ao vento, que embora cheia de coisas escritas, continua a ser levada para longe de ti a medida que a brisa encontra teu sorriso e balança teus cabelos. Já é possível sentir as batidas de um coração renovado, quase infantil, que volta a experimentar a deliciosa sensação de ter borboletas voando no estômago e que acaba de encantar-se com o sabor doce de um beijo roubado...

Porque a vida continua e o poder restaurador dos dias é para quem se permite sofrer!
 

Comentários

  1. Tanto tempo perdido a tentar evitar o sofrimento que nunca percebi o quanto ele é necessário...
    bela reflexão, me fizestes pensar...

    bjus da kirah^^

    ResponderExcluir
  2. Nooooooooooooossa amiga, que texto lindo!!!!
    E com certeza, tudo passa... sempre!
    Ótimo recomeço!!!
    Grande beijo

    ResponderExcluir
  3. Passa sim, minha Linda, e na verdade a vida é um eterno recomeço! Beijo, beijooooo!
    Estava com saudades daqui! ;)
    She

    ResponderExcluir
  4. Tudo passa mesmo.
    Seu texto é lindo.
    Vamos (re)parir!

    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Belo texto! Partilho de muitos pontos de vista que expressas...

    Beijos,
    AL

    ResponderExcluir
  6. É mesmo isso!
    Para viver tem de se saber morrer, as vezes que forem necessárias para se obter a paz que reinará cá dentro.

    Beijos :)
    Que saudades eu tinha daqui...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Se ao me ler, um impulso te trouxer algo à mente ou ao coração, escreva...

Postagens mais visitadas deste blog

Navegar é preciso!

Eu preciso de uma nave onde eu possa embarcar em uma viagem muito louca,  ou talvez, na primeira viagem lúcida e racional da minha vida. Antes do itinerário totalmente imprevisível e improvável, quero ir direto ao meu epicentro, preciso conter estes constantes e insistentes abalos sísmicos que são internos e externos, nascem na mente e no coração...mexem com o corpo e com a alma. Então a guiarei pela densidade do que me é lícito, porque quase tudo me convém. Quero inverter as coisas, quem saber pôr tudo em ordem gere algum contentamento a quem não sabe viver com o que é rotineiro e que beire a normalidade. Quero passar por onde haja cores, inúmeras delas, porque ando enfadada desta versão em preto e branco da minha vida. Minhas angústias, minha acomodação, minha falta de fé e minha insatisfação volátil, deixarei isolados em um planeta prestes a ser atingido por um meteorito ou um cometa gigante, pra espreitar de longe a explosão do que me deixa sem a energia e o brilho das m...

Um coração que dança

Ah coração Tu ignoras tua anatomia Dispõe-te contra tua própria fisiologia Então não sabes que todos os corações bombeiam, pulsam? Porque queres tu dançar? Já não aguento acompanhar teu ritmo Se quero a lentidão de uma valsa Tu queres um frevo Ou se quero dançar sozinha Teimas em lançar-te na sedução do bolero Que só a dois se pode executar Tu estais sempre pronto para uma salsa caliente Qualquer um estilo latino, sinuoso em demasia Mas tem dias que nem quero mover-me No máximo ouvir a música tocar Por ti sambas, sapateia Enquanto meus pés nem suportam sair do chão E quando eu quero dançar livremente Com energia...e qualquer dança Aí insiste tu em me abandonar Não percebes que precisamos entrar no mesmo compasso? Assim me matas ou eu te arraso E então dançaremos por toda vida A cadência dramática e trágica dos tangos Ah, eu bem sei que tudo danças Que com leveza e liberdade Te expandes por todo o universo da arte de se movimentar No balanço de um som, qualque...

Amor de lua

Acabo de ver a lua Ao descer a minha rua Linda, cheia, pura Foi  um encanto esta imagem olhar Não, não é a primeira vez que a avisto Mas ela sempre me fascina Inspirou-me versos, poesia E com este meu jeito de menina Ao olhá-la quase te vejo Guiando o volante senti teu beijo A lua não parava de comigo falar Não adianta Posso estar aqui e você lá Posso ficar e você ir Ou posso ir e você ficar Tudo me leva a você E sei que não sinto sozinha Esta agonia sem jeito Eu Faço e aconteço Tu Foge e recai sobre meu corpo faceiro Não tem jeito Desisto, entendi O que vale é este amor Dentro do nosso peito.