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Das coisas que senti por lá...

Era quase tudo verde ao meu redor, a natureza na sua forma mais singela era só o que meus olhos alcançavam. Ora tinha de presente o assédio do sol, ora a chuva e seu doce som me faziam redesenhar meus pensamentos infantis. Aqueles risos inebriantes, aquela terra conhecida. Comida que  fartava, bebida que não bastava, o aconchego da família. Raízes, orgulho, fortes laços. Cheiros, paisagens, rostos, gostos, caminhos. Brisa que passeava onde tudo se fazia poesia. Mil histórias, as repetidas e as novas...gente que se foi mas nunca deixará de ser. Era de lá que eu sorria, e não eram sorrisos com sombras, nem com dúvidas. Era lá que estavam meu corpo e minha alma, juntos de verdade, não a alma daquela que faz perguntas sobre a vida e fica sem respostas, mas da menina que ainda carregava a leveza das coisas simples, dos entendimentos que satisfaziam... (Lá as velhas emoções extremas tiraram férias e vi que é possível descansar o coração...nem que seja por uns dias...)

Travessuras

Hoje cedo pintei o céu de laranja, não queria que tons acinzentados fizessem parte do meu dia. Às nuvens dei a cor verde e ao cair uma breve chuva fina, a minha roupa branca foi tingida com respingos de alegria. Ousei transformar girassóis em lindas flores lilás e com duas delas enfeitei o cabelo. O sol, que estava escondido e tímido, ganhou uma boca e um sorriso, e passou a brilhar com raios rosados. Pincelei de azul o chão e por onde eu passava pegadas desenhavam imagens que faziam lembrar um sonho bom. As árvores, cansadas de suas cores frias, agora eram pura vaidade coloridas de amarelo e bordô. A areia da praia não poderia ter outra tonalidade, foi de cereja que eu pintei! E ao observar o mar que eu não quis mudar de cor, guardei um punhadinho de areia numa caixinha só pra te mostrar como sou travessa quando não estais...

Avaliar para prosseguir...

Eu nasci questionadora, sempre tive sede de entender tudo à minha volta, o comportamento e a mente humana, as construções sociais ao longo do tempo, a história do mundo, etc. E a maior vítima da minha mente inquieta sou eu mesma, mas confesso, nunca questionei tanto a minha vida! Não, não é um questionamento contemplativo, que gera frases, textos, que divaga sobre tudo e apenas isso...o que tem me incomodado é algo substancial, concreto, porque está nas minhas atitudes, no sono que não vem, nas incertezas lancinantes que fazem pensar a todo momento se estou no lugar certo, fazendo a coisa certa... É um questionamento que dói, que passa do pensamento para o coração, que pulsa, que causa angústia, que paralisa (para talvez impulsionar). Alguém certa vez me disse que isso é amadurecer, crescer. E embora eu sempre tenha me visto como uma pessoa madura (falo isso sem pudores ou falsa modéstia), tenho concordado que tudo isso seja mesmo a ação do tempo e das experiências na minha vida, por...

Entre cacos

É. Então é assim. Ontem você quebrou o caule das flores, hoje um copo, amanhã será um vaso vermelho. E você não conserta as coisas. Nunca. Passado um tempo, você empilha elas sobre a mesa e finge que estão como sempre estiveram. Como sempre deveriam estar. Na mesa (quebrada) as flores (partidas) apodrecem no vaso (trincado). E você sorri, me abraçando como se tudo estivesse bem. Como se ruínas fossem belezas ainda frescas. Não são. Eu vejo os vincos. Eu me corto nos cacos. Eu sei dos armários abarrotados de louça partida. Dos baús repletos de roupas rasgadas. Fiapos de cortina não cobrem o sol, meu amor. É. Então é bem assim. Um dia você vai perceber que a única coisa inteira na casa toda é o espelho. Mas, se o espelho está inteiro, minha querida, então somos nós que estamos partidos. V. Linné Poucas vezes postei aqui textos de outras pessoas, apesar de admirar vários escritores, conhecidos ou não. É que este não é mesmo o propósito do blog. Mas é realmente impressionante como...

Ciranda viva. Viva ciranda!

Já vivi várias vidas na mesma. Já fui muitas pessoas pra me descobrir. Morri, renasci. Já quis fugir do que sou. Já quis voltar desesperadamente a mim. Cansei do futuro e quis voltar. Desejei o passado e quis sair de lá. No presente me perdi. Refiz caminhos e a vários desvios me conduzi. Toquei o inimaginável. E o que estava ao meu alcance a mim omiti. Quando acertei, fugi. Quando errei, persisti. Nesta ciranda confusa, já não sei pra onde ir.

A (pior) analogia do meu interior

É como se os móveis estivessem fora do lugar e os espaços vazios não representassem liberdade para transitar. E como se as gavetas estivessem tão bagunçadas que não fosse possível ser encontrado quase nada  que se desejasse...os objetos da sala estão espalhados na cozinha, e dos quartos, no banheiro. Tem quadros de cabeça para baixo e os tapetes podem ser vistos no teto, não no chão. Há copos quebrados e pouca comida, até a água já é escassa. A televisão não transmite imagens claras e é muito complicado tentar mudar de canal, por isso sou obrigada a ver e rever o que não me agrada...embora ainda restem alguns dvd's com histórias que eu gostaria de viver...e de contar. Só as músicas da minha vida continuam inabaladas, posso ouvi-las sempre que quero e preciso...e não seria possível sobreviver sem isso. Há sombras onde preciso de sol e sol onde preciso de sombra. O calor se torna insuportável quando gostaria de me refrescar, e o frio me entorpece quando o que mais necessito é ser aq...

Refazer Caminhos

A mesma ousadia que me leva a caminhos desconhecidos, me permite refazer outros que por um tempo pareciam enfadonhos ou até considerados descartados. Esta capacidade de reestabelecer emoções perdidas e perder as que julguei permanentes deveria me soar corriqueiro, mas ainda me assusta. Divagar sobre estes caminhos é voltar a falar de fases, todas sempre permeadas pela minha impulsividade. Ser impulsiva requer audácia, saber lidar com uma certa inconsciência e acostumar-se com o gosto da inconsequência. E embora eu seja convicta que seguir impulsos não faça de mim uma pessoa irresponsável, admito que tenho pago altos preços... Entre erros e acertos, contemplo a intensidade dos meus atos, a perplexidade dos sentidos e a incrível habilidade de (re)sentir o entusiasmo ao percorrer caminhos tantas vezes habitados. Adoro a emoção do novo, mas o mesmo conhecido que me cansa, consegue me fazer ver o brilho que outrora apagou.  É constância na efemeridade, é permanência no que se faz fugaz...