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A visita

Hoje eu voltei ao meu quarto de menina, visualizei o papel de parede estampado com listras e flores cor-de-rosa, meus ursos de pelúcia, meus porta-retratos espalhados e lá me vi deitada na cama, debruçada em uma agenda anotando o qua havia se passado, o que estava sentindo e o que eu gostaria que acontecesse comigo.


Divagava nas minhas expectativas, na minha consciência do mundo e de mim mesma, já me sentia maior que aquele espaço, me arriscava no mundo das palavras e ousava teorizar sobre a vida e as pessoas. Tanta coisa passou e as experiências acrescentaram ao meu universo adolescente o sabor agridoce de escrever coisas por tê-las vivido intensamente ou pelo vazio de não poder vivê-las. Era uma constante escrever, tinha uma necessidade imensa de registrar tudo em datalhes, como se não pudesse de maneira alguma deixar aquela imensidão de fatos e sentimentos desaparecerem da minha cabeça e da minha história, a mesma necessidade que eu tinha de tirar fotos de momentos e de pessoas. E eu tinha razão, muitos detalhes se esvaíram na corrente do tempo, mesmo os que consegui anotar.


Ao visitar-me lembrei dos meus sonhos e de como muitos deles ainda estão distantes de mim. Lembrei que em alguns aspectos o tempo não passou aqui dentro e certamente nunca passará. Lembrei de muitos amigos que hoje não mais vejo e que me fazem muita falta. Lembrei de como é gostoso não ter pressa para algumas coisas e muita urgência para outras. Lembrei que a ingenuidade pode ser um colírio e não uma cegueira. Lembrei que por pior que parecesse algo ocorrido na época, eu não tinha maiores responsabilidades. Lembrei do quanto é bom acreditar em coisas e esperar por elas. Lembrei quais são as causas de ser exatamente assim como sou hoje. Lembrei de como é bom namorar escondido e de que é incrível quando um beijo na boca representa somente um beijo na boca. Lembrei que ir para escola não tem nada de chato. Lembrei que passar horas ao telefone pode não ser perda de tempo. Lembrei porque ir a uma festa que você tem que pedir permissão pra sair semanas antes é muito melhor que as festas que você vai quando quiser. Lembrei que os sentimentos podem ser muito confusos e com o tempo a confusão não parece dissoluta. Nossa, tantas imagens, tantos motivos para rir de novo e chorar de novo...mas eu preferi que esta viagem me permitisse apenas sentir saudades, pois lá eu não podia ficar, embora por muitas vezes tenha uma imensa vontade de voltar a viver bem protegida nas páginas iniciais do livro da minha existência. Lembrei que eu me imaginava e queria logo saber como eu estaria hoje...e hoje me recordo de como era bom estar lá. Me cerfiquei que algumas coisas não mudam nunca. Lembrei e queria esquecer que daqui a um tempo sentirei saudade do hoje...se isso me for permitido viver!

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